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VICENTE KUTKA in memorian

VICENTE KUTKA in memorian

texto de Débora Tabacof

 

A primeira salada de frutas dentro de abacaxi que comi na vida foi feita por ele. A primeira aula de dança que soltava o corpo na improvisação e o êxtase da criação: quando o conheci, eu tinha 10, ele 22; era marchand, modelo vivo, era lindo e formava uma dupla erotizada com minha irmã Diana. Passei a confiar nele como uma cega que encontra um guia, principalmente no que concerne à estética, às cores, ao que era o bom gosto, e finalmente ao que era o bom. Foi dentro de sua áurea de magia e beleza que encontrei o Dharma e ele me disse que o Lama Gangchen era bom. Levada por sua mão dançante, a quem era tão acostumada a confiar, cheguei diretamente ao coração da experiência que me envolvia, usava o nome Kutka como um selo de garantia. 

Antes do Dharma éramos já parceiros de criação, nos tempos em que dançávamos com Ivaldo Bertazzo. Para ir ao cinema sempre ligava para ele antes, pois ía todas as tardes sozinho ao cinema e já tinha visto praticamente todos os filmes em cartaz quando me indicava o que eu iria assistir. Num ponto concordávamos: filme bom é aquele que nos primeiros quinze minutos nos faz dar pelo menos uma pequena choradinha. The Voice, recém parida do Nicolau, Lavoura Arcaica, comprando até o CD para nunca esquecer, as óperas a luz de velas, comendo aquelas comidas ao molho de maracujá, quando ele morreu pensei que não saberia nunca mais fazer uma festa, um espetáculo, um livro. 

Os Caramelos eram um grupo de dança cujo mote eram as cores verde vermelho, azul e amarelo. Viajei uma vez de Paris à Barcelona com uma mala onde só haviam roupas verdes e vermelhas. Depois me ative ao verde, ao verde ao ver de.

Queríamos fazer uma performance sob o vão do masp e sobre o viaduto da nove de julho, um impacto de cores ambiental. Para ser visto de baixo do céu, para impregnar o espaço. Estes projetos, 1980 por aí, nunca ganharam outro corpo que não o da nossa imaginação. Mas o evento “Nutrindo a Essência” foi realizado já alguns anos depois com acarajé e tsampa, convidando os monges tibetanos para abrir um evento de uma semana com as baianas cozinhando ao redor. Meditação e atabaque, foi o começo de uma fase fértil de criações conjuntas pela aachaa. Nos encontramos em Borobodur, e lá ele descobriu nos murais de pedra vulcânica que o desenho que tinha criado para ser o logotipo da aachaa estava ali plasmado na entrada do reino de Tushita, uma outra terra pura, como a de Shamballa. Um dia decorou todos os Budas da stupa de Borobodur com flores de lótus verdadeiras, enquanto subíamos fazendo as Koras, circumambulações mágicas, nos surpreendíamos com o que havia esculpido nas pedras ali. 

Descobrimos tarde demais o tanto que ele estava doente. Tinha tirado todos os dentes da boca e se fechado em sua casa no Paradise, como chamávamos a casa de vila no bairro do Paraíso em que morou nos últimos vinte anos. O Rinpoche tinha dito para ele não tirar os dentes, ele deixou um. 

No fim já não ia ao Cogumelo, minha casa no campo que ele pintou as paredes com um cal virgem que respira uma luz de aquarela pelo qual nutro um apego assustador. Havíamos ido uma última vez, parado no posto de gasolina onde ele sempre pedia um bolinho de carne com coca-cola e fumava um marlboro vermelho da caixa de cigarro aberta naquele mesmo dia. Nunca podia fumar um cigarro de um maço velho. Estava com uma mente cada vez mais fixa e toda sua sensibilidade gritante, operística, somou um monte de manias. Ficávamos jardinando, tomando vinho tinto e ele cozinhava para nós. Adorava meu marido Marcos e delirava por nós que iríamos morar em Haifa, pois Vicente amava Israel, os jovens de Israel, achava terra promissora. E filho de Ucranianos sentia que tinha nada haver com o Brasil. Nessas últimas noites em que cozinhou para nós, falava e recontava seu passado em estilo glamouroso; estúdio de pintura em Tóquio, em Viena, em Paris, viagens ao Cairo, ao Quênia, tudo que me fascinara adolescente. A cada vez criando mais um estado de inadimplência do qual não via saída ou solução, todo o presente confrontado com um mito de si que não iria retornar. 

No Cogumelo, nome do nosso sítio, eu fazia o máximo para atualizar o tempo. Queria que ele fosse morar, trabalhar e pintar lá e passamos juntos ali suas últimas horas de lucidez. Levou para lá uma tela vermelha já com muitas camadas pintadas e pendurou na parede da cozinha, vermelha também. Naquela última vez, afundou o pincel na tinta branca e desenhou um círculo convictamente, um círculo que entrava ainda um pouco para dentro de si mesmo e encerrava ali dentro uma espécie de ponto final. Quando entrei na casa me assustei. Ele disse: agora está pronto. Perguntei se era o fim de seus quadros multidimensionais, vivos. Eram incontáveis camadas sobrepostas de tintas, seus azuis, que tanto amava não estavam ali, era o vermelho intenso e uma borda desenhada que delimitava um espaço interior. Um gesto com uma quantidade enorme de energia. Mas um gesto fechado, como em todos os sinais que nós líamos naqueles dias em que uma coruja se aproximou de nós pelo chão, aproximando-se para morrer ali pertinho, no quintal. Enterramo-na juntos, cantando mantra com uma tristeza enorme, pois também naquele dia havia sumido a tartaruguinha que eu vinha criando com as crianças, a tartaruga doente que eu atravessava a cidade para levar ao veterinário também se fora. 

Reconheço no gesto pintado a mesma qualidade de energia com que decidiu morrer. Não se matar, jamais se suicidar, mas morrer. Ele desenhou o círculo branco e fechou com um ponto interior. Fez uma escolha e eu me comprometi. 

Teve uma carreira meteórica, com estúdio em Tóquio, Berlim. Vivia grande parte do ano em Viena, parte de uma família que o abrigava em seus castelos, de onde viajava o mundo ao redor de si. E quando não estava viajando, estava telefonando para os amigos de todo lugar. As contas de telefone mais caras do séc XX, um modo de vida que não via como continuar. Lindo, louco, sábio. Apenas meu amigo. 

Já muito debilitado, foi internado, foi parando de falar até que disse para Diana: o Lama Gangchen chegará em Novembro e então vou pedir a ele que me ensine a morrer. Não havia planos para que o Lama viesse ao Brasil naquele ano, até que em Outubro recebi um e-mail avisando de sua chegada. Um arrepio me atravessou com medo a mente. Assim que o Lama chegou no Brasil procurei uma brecha para conversar com ele sobre o estado de debilidade física e mental do nosso amigo comum. Mas foi só a caminho da clínica de repouso onde ele estava que tomei coragem de contar ao Lama que Kutka havia pedido que ele o ensinasse a morrer. Éramos cinco mulheres, no quarto, tudo arrumado, bonito e triste. Vimos que Vicente o reconheceu pela leve expressão do rosto, de alegria. Este reconhecimento, explicou-me o Lama depois, era o fundamental. Entendi muito depois que esse reconhecimento teria que ser feito também nas outras dimensões para que o efeito da magia funcionasse. Eu não acreditava que fosse funcionar tão rápido, tão bem e não avisei minha irmã Diana para que viesse se despedir. 

Começamos a fazer as rezas preliminares e Lama Gangchen pegou um mala, um rosário de contas cristalinas, e começou a mexer assim na frente dos olhos do Vicente, como fazemos para chamar atenção diante de uma criancinha quando queremos fazer-nos acompanhar pelo olhar. Pôs o mala no pescoço dele, que já não controlava o corpo, sua mente em algum lugar… Com os mantras, ele veio vindo à consciência, começando a prestar atenção aos sons, ao nosso olhar, até devagarzinho começar a cantar junto, trazendo grande alegria ao Lama que parecia realmente estar com um gancho indo lá no fundo de uma indiscriminada mente pantanosa buscar o olhar conhecido que vinha à luz. Sua face ia voltando a ter uma expressão própria, seu sorriso, seu rosto, sua mente iam enfim voltando a dar contorno à pessoa de quem ia me despedindo, numa instantaneidade da intensidade da vida que se expressa pela consciência e só, mais nada, naquele dia vivo, dali a uma semana, morto. 

Como uma criança que recebe o mundo pela boca, Vicente comia o tempo todo, a bolacha, o bolinho de carne da padaria, como aprendi nesse final o mesmo que aprendi em todos os anos anteriores, mas como num negativo: o avesso daqueles anos felizes, histéricos, dançantes era ainda mais multifocalmente interessante, pois tratava- se da ponte, de construção de uma transcendental ultrapassagem de forma; o que antes era só cor, agora era também transfiguração, ir embora, eu pensava, como farei alguma festa ainda na vida, como? Sem você, meu amor. Rimpoche ía dando pedaços de biscoito em sua boca, passava pela boca dele mesmo primeiro, depois oferecia, Vicente comia. Dava umas cuspidinhas também, comunicando profundamente o caminho, como as formigas que trocam gotículas de saliva contendo toda a informação do caminho percorrido. 

Lama nos ensinou a ir pegando com as mãos os cinco elementos do corpo humano ali para jogar no espaço azul do céu, com isso fazendo uma abertura para o azul, soha!

  Deixamos ele deitado na cama após despedir-se  delicadamente de um por um. A mim, agradeceu.

Cinzas. Virou um monte de cinzas prateadas após um ritual de flores e Carmem de Bizet”. Sobre elas novamente os monges trabalharam e finalmente, meses depois, foram espalhadas sobre a terra fofa. Rimpoche e Lama Michel semearam a terra com aquelas cinzas onde foram plantados os vasos de gerânios. Amarelos de ouro intenso, vermelhos escarlate, perto de um jardim de girassóis. Se por um instante chorei foi como nuvem de algodão desfiado sob imensidão de céu: o luto acabou, a transformação completa, inteira, se deu. As crianças olhavam as cinzas e o jardim que em instantes floresceu. 

Que outra geração de sementes possa germinar desse modo de realmente viver a morte como transformação, como continuação. Com consciência.

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