Rua Apinagés, 1861, Sumaré – São Paulo/SP

Giselle da Costa Araújo

Giselle da Costa Araújo

Quando você teve seu primeiro contato com o budismo tibetano?

Em 1996.

Como e quando você conheceu o Centro de Dharma?

Em abril de 1996, uma amiga que dava aula de yoga no centro da Rua Aimberê me falou de um lama curador que eu deveria conhecer. Era o Lama Shakya, que e se tornou Lama Segyur mais tarde. Eu estava em depressão e queria um tratamento. Tive uma consulta com ele, que me deu o Sutra do Coração para ler todos os dias e visualizar uma luz azul saindo do coração de Buddha. Na época, havia um tratamento às segundas feiras, que fiz durante um ano e às quartas-feiras havia a Autocura Ngalso com a Bel César. Eu passei a frequentar os dois dias e tive uma grande melhora. Fiz um retiro de Tara Verde com a Bel e a Débora Tabacoff. Com o retiro também dei uma boa mudada, me senti alegre e mais disposta para vida.

Como e quando você conheceu Lama Gangchen? 

Em 1996 ou 1997, não lembro exatamente, Lama Gangchen veio e deu uma palestra na casa do Daniel Calmanowitz. Nesse dia, ele passou por mim e disse: depois me procura que eu quero falar com você. O engraçado que a sensação que eu tive nesse dia foi de grande alegria. Eu disse a mim mesma que tinha descoberto o meu guru, aquele que eu tinha sempre procurado por toda a vida. Em 1992, no Japão, um outro guru, seisei Hayashi, havia dito que eu ainda me encontraria com o meu verdadeiro guru, e nesse dia eu saberia que ele era o que eu buscava. Aconselhou-me a não abandoná-lo nunca e a adotar o método de cura dele, a fim de purificar karmas pesados que poderiam encurtar a minha vida.

Como e quando você conheceu Lama Michel?

O fato é que fomos a Malásia após o retiro de dezembro, em Borubudur, e no fim de 1998, fomos a Taiwan. Nesses retiros, encontrei Lama Michel e fiquei encantada com aquele adolescente com inteligência acima do normal, que falava várias línguas, entendia de informática e estudava no monastério. Apesar de ser precoce, às vezes, era infantil e cantava músicas e brincava com os amigos no ônibus que nos levava. De lá para cá, Lama Michel tem demonstrado ser o que o Lama Gangchen descreve como um discípulo e filho perfeito, que sempre segue e executa os sonhos de seu mestre. Um empresário que entende de engenharia, arquitetura e outros talentos, capaz de liderar projetos muito importantes. Um grande intelectual capaz de ler, interpretar e ensinar em várias línguas complexos textos do Dharma, e um incansável trabalhador que não precisaria trabalhar, mas o faz a pedido de seu guru.  Finalmente ele é um Yidam, uma divindade. 

Como e quando conheceu Lama Caroline?

Na primeira vez que fui a Borubudur, no final de 1997, fomos a Kuala Lumpur na Malásia. Lama Caroline tinha levado sua mãe ao retiro e fizemos amizade instantaneamente. Naquele retiro, passávamos todos os dias numa casa de chá e nossa diversão era conversar sobre assuntos diversos. Lama Caroline não vestia o hábito de monja naquela época, mas já morava na Itália e era quem escrevia os livros do Lama Gangchen, sob a tutela da editora italiana Glória. Somos amigas desde então e ela tem acompanhado minha trajetória no Dharma. Lama Caroline é o que podemos descrever como uma dakini. Ela tem algo de diferente de todas as pessoas que conheci, que sentiram o chamado do Dharma, se apaixonaram pela filosofia e decidiram largar tudo para seguir seu guru. Além de uma intelectualidade aflorada, capaz de traduzir textos complexos do Tibetano para o inglês, ela sempre foi capaz, através da sua intuição e ligação forte com Lama Gangchen, de entendê-lo praticamente de forma telepática, pois na época que se conheceram, Rinpoche mal sabia falar inglês. A literatura que temos hoje de toda a autocura e de todas as iniciações tântricas, devemos a ela. Seus retiros constantes a tornaram capaz de não só ensinar o Dharma, mas de empoderar os discípulos de Lama Gangchen em diversas qualidades, devido às suas realizações.

Já participou de retiros e peregrinações com Lama Gangchen, Lama Michel e Lama Caroline?

Sim, muitas vezes. Fui 4 vezes a Borubudur (1997, 1998, 1999 e 2014) e por anos seguidos fui a Albagnano em Julho e Dezembro. Nos últimos anos, fiz quase todos os retiros no Brasil com os 3 lamas , inclusive na Amazônia em 2000/2001. 

Qual sua experiência dessas viagens?

Eu acho que minha experiência é digna de um livro sobre a minha evolução como pessoa. 

Acredito que o primeiro grande retiro foi em Borubudur, em 1997/1998. Naquela época, eu era iniciante no budismo, apesar de já frequentar o centro de Dharma regularmente por um ano ou dois. O fato é que eu tinha uma depressão crônica, tinha perdido dois bebês em início de gestação, apresentava problemas emocionais e distúrbios psíquicos de longa data. O retiro foi o primeiro grande passo para uma mudança que veio ocorrer mais tarde. Sinto que em cada ida a Borubudur, um grande veneno mental era trabalhado. Na primeira viagem, uma camada grosseira se purificou e um grande medo foi trabalhado. O medo da solidão, de não poder mais ter filhos, de não encontrar o parceiro adequado, tantos medos me angustiavam.  Mas o maior medo ali era não ser aceita pelo próprio guru. Após um canto de agradecimento para Lama Gangchen, me parece que meu chakra secreto se transformou e uma ligação mais aberta com o guru se desenvolveu.

Na segunda viagem, foi a aversão, pois tinha tido muitos dissabores com pessoas da própria comunidade, que haviam me decepcionado. Me recordo que durante um puja de fogo, me lembrei de tudo e chorava muito. Rinpoche me perguntou qual a razão e eu contei as histórias. Ele disse que aquelas pessoas tinham a mente desafortunada e que era assim mesmo, pois no caminho de um Boddhisatva, a cada degrau que subíssemos no caminho, mais pessoas difíceis nos apareceriam. A vantagem é que estaríamos cada vez mais preparados para lidar com elas.

Na terceira viagem a Borubudur, eu tive um grande sofrimento com um  namorado que levei. Passei por uma grande rejeição e traição, senti um ciúmes causticante que me fez adoecer. Tive uma grande lição de Lama Gangchen, que me dizia o tempo todo que eu deveria focar no retiro, fazer as práticas e entender que aquilo não era importante. O desfecho daquilo foi terrível e transformador. Acabamos terminando ali nosso relacionamento, o rapaz foi orientado pelo Lama Michel a me devolver o dinheiro da passagem, que eu havia comprado, e a pedir desculpas pelo que fez. Enquanto isso, Lama Gangchen me deu uma lição de autoestima. Disse que ciúmes era falta de autoconfiança, que falta de autoconfiança era falta de autoestima e autoestima era algo que eu deveria pedir aos Buddhas e Boddhisatvas na estupa. Finalizando, ele disse que eu era bonita, mas não reconhecia que era bonita, era uma amiga de valor, que tinha amigos por todas as partes do mundo, que tinha uma inteligência acima do normal e uma profissão que todos invejavam. Entretanto, eu não reconhecia tudo isso. Precisava que ele me dissesse, que eu merecia alguém no mesmo nível que o meu. Não somente no nível espiritual, mas alguém que pudesse pagar sua própria passagem para um retiro como aquele. Mandou-me ir a estupa e pedir aos Buddhas que me dessem autoestima. E disse que perdi a oportunidade de aproveitar o retiro porque passei todo o tempo em torno desse caso de amor frustrado.

Uma ou mais histórias importantes, marcante e/ou de transformação interna que gostaria de compartilhar?

Todas as experiências em Borubudur foram transformadoras e também a que se passou na viagem a Amazônia em 2000/2001. Nessa viagem, tive uma experiência dramática, no meio de uma tempestade, com o rio que quase virou um mar com ondas enormes, num barquinho que poderia virar a qualquer momento. Lembro que eu dei a mão a Fernanda, filha da Bel e do Daniel, e à Bruna, filha da Débora Laruccia. Quando conseguimos chegar sãs e salvas no barco grande onde Lama Gangchen estava nos esperando, após uma noite dificílima de travessia embaixo da tempestade e de árvores que caíam, Lama Gangchen nos recebeu, um a um. Lembro-me que ele me perguntou o porquê eu não sabia nadar, tendo nascido no Rio de Janeiro, se ele, nascido nos Himalayas, sabia nadar. Ele também me perguntou se senti medo de morrer afogada. Ele viu tudo o que eu tinha passado, o medo na escuridão, na areia e no rio embaixo da tempestade. Eu realmente achei que iria morrer ali naquela noite.

Mas a experiência mais profunda foi quando minha mãe estava terminal com câncer e eu liguei para ele no Tibet, para pedir que a salvasse. Ele havia me salvado de diversas situações, de acidentes sérios, eu tinha visto e experienciado seu poder de cura. Neste momento, Rinpoche disse-me que não seria possível salvá-la porque o karma era grande e tinha amadurecido e não havia solução. Quando ouviu minha voz e o choro de desespero, completou que ia ter que cuidar das duas, da mãe e da filha. Esse período de luta para que minha mãe se curasse foi muito doloroso para nós 3, eu, ela e meu irmão. Rinpoche me disse que eu deveria pedir ajuda a Lama Lawang que estava no Brasil naquela época. Realmente, Lama Lawang ajudou minha mãe a aceitar a morte, respondeu às perguntas dela nos últimos dias e ela aceitou. Eu também fui instruída por ele. Lama Lawang prometeu fazer o Powa, no momento da sua morte, a transferência de consciência do guru que pode ajudar a pessoa a atravessar o processo e ir diretamente para uma terra pura. Ele o fez no momento que eu o avisei que ela havia falecido. Tive a certeza quando saí do cemitério e fui para o aeroporto do Galeão para voltar para São Paulo. Olhei o céu e tinha um enorme arco-íris, a prova de que minha mãe estava acolhida num bom lugar.

Faça um resumo da sua trajetória no Centro e com os Lamas – viagens, retiros importantes.

Fiz viagens de 1997 até 2016 para Borubudur, Albagnano e Amazônia com os Lamas, fiz incontáveis iniciações. Vários Lamas, Geshes e monges vieram abençoar minha casa, onde fizeram pujas de proteção. Conheci Trijang Rinpoche, a reencarnação do guru de Lama Gangchen, em 2000, com quem tive uma experiência de cura e de purificação de interferências graves que poderiam ter tirado minha vida. Na época, não havia ainda o Centro de Albagnano, apenas a casa do Lama. Lembro que após uma iniciação de Amitayus conduzida por Trijang Rinpoche, as interferências terminaram e eu consegui vencer uma fase de muita dificuldade com rivais implacáveis no meu trabalho. Fui reencontrar Trijang Rinpoche novamente em 2013 e depois em 2016, quando voltei a Albagnano para iniciações com o guru do meu guru. A presença de grandes Lamas, o trio Lama Gangchen, Lama Michel traduzindo Trijang Rinpoche diretamente do Tibetano, a energia gerada naqueles momentos fizeram desses dias os mais felizes da minha vida. O que senti não pode ser expresso em palavras. 

Conte suas experiências de cura – física, mental – através das práticas NgalSo e/ou daexperiência direta com os Lamas.

Uma delas foi realmente durante o retiro de Amitayus com Trijang Rinpoche e Lama Gangchen Rinpoche. Naquele ano de 2000, eu havia atravessado   3 acidentes sérios, um em cada mês antes da viagem à Itália. Eu escapei de morrer ou de sair com graves sequelas. Lembro que depois do retiro de longa vida e de recitar os mantras com Lama Caroline durante dois dias, a iniciação de Amitayus mudou minha vida e anulou um processo de magia que fazia um efeito devastador na minha vida. Num desses acidentes, eu quebrei o nariz. Lembro de ter ligado para Lama Gangchen e ter explicado que meu rosto estava todo machucado, a boca cortada e inchada e o nariz quebrado, eu estava completamente desfigurada. Ele perguntou como aconteceu e disse que ia rezar para mim. Lembro de estar sentada na cama, com a roupa de trabalho que vestia na hora do acidente. Nesse momento, um sono incontrolável tomou conta de mim. Eu adormeci de tarde e quando acordei, meu rosto estava desinchado, o nariz parecia estar apenas cortado e tinha voltado para o lugar, a boca voltou ao normal. Quando cheguei ao local de trabalho, quem me viu machucada no dia anterior, não acreditou no que viu.

Além das experiências de cura física, que foram inúmeras como a contada acima, ao longo desses anos, tenho me curado de males que me afligiam desde a infância. Eu sempre tive problemas emocionais muito fortes, problemas de origem espiritual também, passava por momentos de angústia e não via cura através de terapias ou mesmo de tratamentos espirituais em diversos centros de cura espiritualista. Com o passar dos anos, com as iniciações, houve uma transformação lenta e gradual a um estágio de normalidade em que as grandes dificuldades de doenças, perdas, perseguições e incertezas, têm sido mais fáceis de superar, sempre com o conselho e o acolhimento de Lama Gangchen, que para mim é mais que um guru, ele é uma mistura de pai, mãe, médico e guia espiritual.

Conte alguma experiência com o Lama como seu Guru.

Eu acho que uma das experiências que me abalou muitíssimo foi da última vez que fui a Borubudur em 2014. Eu havia sido despedida exatamente antes de ir para lá, no meio do caminho, em Paris. A experiência era totalmente inesperada e drástica. Rinpoche disse que eu poderia ficar na casa de um amigo dele sem gastar, apenas ajudando na comida  consumida, pois esse amigo me receberia em retribuição a alguns favores que lhe devia. Assim, não precisei gastar em acomodação, tinha comprado a passagem com milhagens e fiz o retiro. No entanto, algo muito sério aconteceu e eu cometi um erro muito grave sem perceber o que tinha feito. Isso resultou em uma grande lição de Lama Gangchen, que quase me expulsou do retiro e de seu grupo. Eu pedi desculpas, mas Ele foi duro comigo, dizendo que fofoca é algo que nunca é sem querer e é tão grave que pode afetar a vida das pessoas para sempre. No fim, me aceitou de volta, disse-me para ficar e que eu precisava receber essa lição, aprender de uma vez por todas, enquanto ele ainda estava vivo, senão não iria mais mudar. E aquele hábito me prejudicava imensamente no trabalho, pois meus rivais sempre usavam as minhas palavras contra mim mesma. Eu lembro de ter me sentido muito abandonada e perdida, sem saber para onde ir e muito envergonhada. No entanto, quando ele me acolheu de volta, senti que tinha sido duro como um pai que precisa corrigir um filho rebelde.

Outras experiências que precisam ser mencionadas é que tenho tido situações de competição de trabalho que geraram perda de contratos, de empregos e até prejuízos enormes. Nesses momentos, Rinpoche reza sempre por mim e de uma forma ou de outra, como mágica, alguma ajuda financeira aparece e eu consigo me reempregar. Muitas vezes, a ajuda vem de onde eu menos espero. 

Passei meu último aniversário, em setembro de 2018, com Ele e no momento em que descíamos do gompa de mãos dadas, me disse assim: sempre que eu rezo para você conseguir trabalho, você consegue. E riu.

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