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Bel Cesar

Bel Cesar

Às margens do mesmo rio

 

O Michel tinha 12 anos quando me comunicou que queria ser monge e viver no Tibet. 

Ainda hoje me perguntam: você morre de saudade? Não, respondo, essa é uma palavra que não existe entre a gente. Sinto que eu e o Michel caminhamos às margens de um mesmo rio em que partes de seu percurso são tão largas que não é possível enxergarmos um ao outro. Mesmo assim, a sensação de trilhar pelo mesmo caminho que ele, e seguindo em uma mesma direção, me faz senti-lo próximo a mim. Aprendi a lidar com a distância olhando não pelo ângulo da falta, mas do propósito, e essa foi uma das lições importantes que meu filho me ensinou. 

Fui mãe muito nova: tinha apenas 23 anos quando ele nasceu e 27 quando tive a Fernanda. Filhos não estavam no meu plano até o dia em que fui consultar meu mapa astral e o astrólogo me disse:

“Você mudará o seu status civil até o fim do ano. Deve conhecer alguém no dia 21 ou 22 de agosto.”

Batata: dia 21 eu conheci o pai das crianças. No mês seguinte, tive um sonho, no qual eu estava grávida. Achei incrível e voltei ao astrólogo para contar o que estava acontecendo. Ele me perguntou se havíamos tido relações sexuais em determinado dia – acertou de novo. Em seguida, me passou uma recomendação:

“Nem pense em não ter essa criança, porque ela será importante para o mundo.”

Por causa dessa história, costumo brincar que saí do astrólogo grávida do Michel. 

Lembro que minha primeira sensação como mãe foi a de me sentir útil o tempo todo. Eu estava “aterrada” de tal forma que ficou impossível não acreditar que na vida tudo tem um propósito. E enquanto o Michel crescia, eu observava o quanto ele era curioso, investigativo, amoroso e compassivo. Comecei, então, a escrever as histórias dele. Ele elaborava pensamentos tão particulares, como todas as crianças, aliás, mas os dele eram diferentes. O Michel via poesia no pôr-do-sol e nas folhas das árvores que balançavam com os ventos. Questionava-se sobre a vida e a morte. Às vezes, dizia-se cansado, e eu me espantava: como pode uma criança tão pequena sentir o peso do mundo?

Naquela época, ainda não tínhamos contato com o mundo budista. Isso só viria acontecer no meu aniversário de 30 anos, quando o meu astrólogo me apresentou a um casal de amigos. Para ele, eu era a pessoa certa para trazer um lama tibetano para o Brasil. Mostraram-me fotos do lama Gangchen, que depois se tornaria meu mestre e do Michel, e a ideia me pareceu interessante. Minha vida então girou 180 graus e em um mês organizei a sua vinda. Quando nos vimos pela primeira vez, senti uma alegria incrível, e nem eu nem ele conseguíamos parar de sorrir um para o outro. Não sabia, então, explicar de onde vinha essa sensação de felicidade, mas hoje sei: eu havia encontrado meu mestre. Meus filhos estavam comigo no jantar que organizei para ele, e me surpreendi muito quando, na hora de ir embora, o Michel, então com cinco aninhos, me pediu para ficar e dormir com o lama naquela noite. Achei curioso, pois ele não era de dormir na casa dos outros, e vi que ele ficou muito bem. Não elocubrei muito, mesmo porque nunca fui uma pessoa esotérica. Poucos dias depois de nosso primeiro encontro, o monge me chamou de lado e falando com muita naturalidade, enquanto organizava alguns objetos em uma instante, me disse: 

“Você vai abrir meu primeiro centro no ocidente.”

“Está certo”, respondi, confusa. E naquele dia abriu-se, para a minha família, um portal de comunicação com um novo mundo, desconhecido até então.

Ainda durante essa primeira visita do lama Gangchen ao Brasil, que durou 12 dias, outro evento aconteceu – e só então comecei a desconfiar que algo diferente estava se passando com a gente. O Michel, recém-desperto, veio até mim e me disse: 

“Mãe, tem uma alguma coisa estranha acontecendo. Quando eu acordei de manhã, eu escutei você dizendo: ‘Vajiraiana, Vajiraiana’.”

Eu não conhecia a palavra, mas imaginei ser algo que o lama pudesse ter dito para ele. Fui buscá-la em livros, uma tarefa bem complicada pois não havia publicações sobre o budismo tibetano em português. Consegui encontrá-la, e hoje a conhecemos bem porque seguimos esse caminho, que é uma vertente do budismo tibetano. Fiquei muito impressionada. Afinal, eu sabia que muitas crianças, às vezes com 4 ou 5 anos de idade, deixavam a casa dos pais para irem viver em monastérios. Talvez meu filho fosse a reencarnação de um lama e isso houvesse trazido o lama Gangchen até nós? Contei sobre esse último evento somente para o pai dele, e para mais ninguém. 

Eu de fato abri o Centro de Dharma, em São Paulo, e o coordenei por 15 anos, o que virou missão do pai do Michel depois disso. O budismo virou definitivamente parte da nossa vida e, dos 5 aos 12 anos dele, fizemos viagens para a Índia e a Indonésia; com o pai, que também entrou para o budismo, ele foi para o Nepal e o Tibet. Tanto no Brasil quanto nas viagens, o Michel sempre mostrava o desejo de estar com os lamas e gostava de acompanhar as longas cerimônias. Depois tudo passava, retornávamos para São Paulo, ele voltava para a escola e para sua rotina. No entanto, em uma dessas idas à Índia, quando o Michel tinha 8 anos, algo importante aconteceu. Eu havia, tempos antes, sonhado com um local montanhoso, cheio de grutas – e meses depois eu vi uma reportagem em uma revista de turismo justamente sobre elas: as grutas de Ajanta e Allora. Quis visitá-las e organizamos uma viagem, junto com lama Gangchen, para visitá-las. Em determinado momento do passeio, entramos em uma dessas grutas e vimos o lama sentado fazendo orações, o que chamamos de “tomar refúgio”, repetindo um determinado mantra. Ao sairmos de lá, o Michel me disse:

“A gente acaba aprendendo os mantras de tanto que o lama os repete, né?”

Mas eu não havia reconhecido aquele que acabávamos de escutar. E fiquei surpresa ao ouvir o Michel recitando-o fluentemente. 

“Puxa, filho, isso é incrível. A gente precisa contar para o lama!”

O menino ficou nervoso.

“Não vai contar não, porque senão ele vai ter certeza de que sou a encarnação de um lama e vou ter que ir morar em um monastério. E eu não quero ir!”

Nunca essa ideia havia sido verbalizada entre a gente de forma tão clara. Com muita calma, expliquei que estávamos trilhando o caminho do budismo justamente para sermos livres para tomarmos nossas decisões. Continuamos nosso passeio e, a um certo momento, fez sentido comentar que estávamos visitando um lugar que havia aparecido em meus sonhos. Nessa hora, ele sentou no meu colo e começou a chorar.

“Mãe, se você teve esse sonho e eu sou um lama, então estamos juntos há muitas vidas.”

No dia seguinte, fomos para as grutas de Allora. Entramos em uma que parecia um quartinho, com camas de pedra. Fazia um dia quente e nos deitamos, cada um em uma cama, e eu comentei, em tom de brincadeira: 

“Então esse era o nosso quarto na vida passada?”

Ele não respondeu. Quando olhei para ele, vi que virava a cabeça para um lado e para outro. 

“Mãe, minha cabeça vai estourar!”

Vi que algo muito diferente estava acontecendo. Corri escadaria acima para buscar ajuda e encontrei o lama Gangchen. Ele falou firme: 

“Fique calma, pois ele está apenas lembrando de suas vidas passadas. Traga-o para mim.”

Quando cheguei na gruta, ele estava desmaiado, e com ajuda consegui trazê-lo. O lama Gangchen fez algumas rezas, borrifou-lhe água e me pediu que aguardasse, pois ele em breve despertaria. Quando acordou, o Michel descreveu o que viu.

“Primeiro, estava tudo escuro, e daí surgiu uma luzinha. Dessa luz, apareceu um semicírculo e, dentro dele, várias grutas e grutinhas. Dentro de cada gruta, uma ligada à outra por pontes, haviam três yogues da Índia. E eu me via no meio de uma das pontes.” 

Essa descrição faria com que, quatro anos depois, a “ficha” caísse para mim. Ele estava então com 12 anos e fizemos nova viagem à Índia. Eu havia viajando antes de todos – o Michel, o Daniel e a Fernanda – e com eles veio uma carta de minha mãe, me pedindo para perguntar a ele o que havia acontecido em nosso apartamento antes da viagem. Deixei passar uns dias e estávamos no Nepal quando percebi que, de fato, havia alguma coisa diferente. Então fui conversar com o Michel.

“Fiz uma festa de despedida, mãe, porque eu quero morar em um monastério e ser monge”.

Senti-me traída. O pai dele sabia dessa decisão, assim como minha filha e o lama Gangchen. Eles já haviam combinado tudo. Saí muito nervosa dessa conversa e fui para um hotel com a Fernanda. Fiquei dois dias sem procurar pelo Michel. Tentei trabalhar o assunto internamente, e entendi que precisava ir conversar com ele. Busquei-o e fomos caminhando pelo centro de Kathmandu.

“Por que você não me contou antes?”, perguntei.

“Eu sabia que você ficaria muito mal e achei melhor não dizer.”

“Opa, escuta aqui: até hoje eu cuidei de você e de mim mesma. Agora que você está resolvendo cuidar de você acha que vai passar a cuidar de mim também?”

Ele ficou feliz.

“Isso quer dizer que posso te contar tudo?”, ele me perguntou.

“Claro que eu quero saber tudo. Conte a história desde o começo.”

A conversa nos deixou bem de novo, e depois dela decidimos visitar de novo as grutas de Ajanta e Ellora. Assim que chegamos, tive a certeza da realidade de tudo o que estava acontecendo. Dessa vez, diferente de quatro anos antes, havia na entrada do lugar uma planta da área, mostrando a formação vista a partir de cima. Ali estava a ferradura que ele havia descrito dentro da gruta. Escalamos então uma montanha central, de onde era possível ter essa visão geral. Vi as marcas das águas das monções e os vestígios de pontes de madeira, como ele havia visto de seu sonho. E dessa vez, fui eu quem disse para ele: 

“Você não vai mesmo voltar para o Brasil. Entendi o recado e entrego aqui a minha responsabilidade. Você vai fazer o que acredita ser o certo.”

Como mãe, tive que me convencer de que não estava fazendo uma loucura ao permiti-lo ir. Mas concluí que loucura seria tirá-lo do destino dele, fingir que não existiu o dia em que testemunhei seu passeio por uma vida anterior. Não que isso não tenha me custado muito e, ao voltar dessa viagem, tive hepatite, fiquei doente por 40 dias, passei por um longo processo para conseguir interiorizar a situação. Também fiz terapia para poder elaborar tudo o que aconteceu. Eu dizia para o terapeuta: “Ainda tenho muito a ser mãe. Queria poder fazer as coisas normais, como levá-lo ao dentista, cuidar dele quando estiver doente. Onde colocarei toda essa energia que ainda existe mas que não pode ser utilizada?” Ela me respondeu:  “Ser mãe é estar disponível para o filho quando ele precisa. Assim você se mantém em seu papel”. Mas eu estava ali, à disposição, e ele simplesmente não precisava de mim. Naquela época, a comunicação à distância era muito mais complicada do que hoje. Tínhamos um enorme fuso horário entre nós e ele precisava se locomover um monte para conseguir me telefonar. Mas um dia atendi o telefone e era ele. Surpresa, o ouvi perguntar:

“Mãe, comprei um forno! O que posso preparar nele?”

“Você tem papel alumínio? Então põe uma batata dentro de um pacotinho fechado!”

Ele então desligou, eu sorri dentro e fora de mim: essa foi uma das minhas chances de “ser mãe”.

Já pensei muito sobre a sorte que tenho em ter filhos tão companheiros e poder acompanhar o encaminhamento deles. Sempre senti que o Michel me enxerga em todos os meus aspectos, e vice-versa. Separação é algo que não existe entre nós. Vivemos a vida separados e juntos, e ele sempre acompanha tudo o que eu faço. Ontem nos falamos pelo skype e comentei que eu daria uma entrevista para falar sobre minha experiência como mãe. Disse para ele:

“A escritora me pediu para pensar no que eu havia aprendido com você, filho. Fiquei pensando muito nisso e entendi: com você, aprendi a ser feliz.”

 

Isabel Villares Lenz Cesar, ou simplesmente Bel Cesar, é mãe de Fernanda (nascida em XXXX) e do lama brasileiro Michel Riponche (nascido em 1981), frutos do casamento com Daniel Calmanowitz. Quando fala do filho, surge nos olhos o brilho de um orgulho que ultrapassa o de mãe de um homem de bem. É autora de seis livros – entre eles o Mania de Sofrer e O Sutil Desequilíbrio do Estresse –, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990 e dedica-se ao atendimento terapêutico de pacientes terminais. Faz as contas e comenta, sem nenhum traço de dor, que o filho mais velho já passou mais anos de vida longe dela do que perto. E diz: “Quem conhece o Michel sabe que é assim que tinha que ser. Esse é o normal para ele e, portanto, é o normal para mim também.”

 

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