Rua Apinagés, 1861, Sumaré – São Paulo/SP

Ana Cristina Koda

Ana Cristina Koda

Conheci o budismo tibetano em julho de 2008. Tinha recebido uma indicação dos meus mentores para procurar o budismo e estava bem resistente, tipo “não vai rolar”.  Até então minha referência de budismo era o Zen que me dava arrepios por sua austeridade e rigor bem japonês.

Um dia, ouvi falar do Lama Michel e do budismo tibetano, através de uma amiga, Helena Renner, em outro grupo espiritual. Achei que isso, eu poderia tentar. Fui lá no dia que ela me disse que seria aberto ao público, ainda no prédio antigo da Apinajés. Acho que era despedida dele. Foi um dia memorável. Nunca imaginei que poderia ficar 4h sentada no chão num lugar apinhado de gente, mas foi bom demais. Tinha uma alegria e um sorriso que não cabia no rosto. Até hoje, sinto que eu e cada um da sangha tem a sensação que ele está falando com a gente em particular, tamanha conexão e sincronicidade. Logo em seguida, tive contato com a prática de autocura NgalSo e fiquei completamente encantada com a pura alquimia da prática. Só pensava: que gênio criou isso?

Alguns meses depois, conheci o gênio.  Lama Gangchen veio com Lama Caroline e não sei se foi dessa vez que ele veio também com o monge do Sri Lanka, o Anuruda.

Eu já tinha começado a frequentar e fiz o curso de introdução ao budismo com a Fernanda Machado. Logo no princípio, lembro também que houve uma única vez que estavam Lama Gangchen, Lama Caroline e Lama Michel, juntos aqui.

Já fiz retiros com o Lama Michel, outros professores do Dharma e fui uma vez para Borobudur.

Da viagem para o oriente tenho dois momentos marcantes. O primeiro foi o Maha Puja Day, no Dhammakaya, que foi um dos dias mais emocionantes da minha vida, que serei eternamente grata ao Lama Gangchen por nos dar essa oportunidade maravilhosa. Outro momento foi a atenção e carinho que recebemos em Borobudur, quando fiquei muito doente. Aliás, o nosso virou o quarto das enfermas, pois eu e a Aloice ficamos mal de pneumonia (eu senti que não era apenas uma gripe e a Aloice fez exame no Brasil e confirmou diagnóstico de pneumonia) e a Nayra dos nervos. De qualquer forma, fiquei uns 3 ou 4 dias de cama. Lembro que mesmo tomando antibióticos, um dia eu tinha me decidido ir para o hospital de noite se a febre não baixasse. Neste dia, no final da tarde o Lama Michel foi nos visitar. Enquanto conversava conosco, ficou passando a mão nas minhas costas, esquentando-a em movimentos circulares e delicados. E assim, como quem não quer nada, ele simplesmente me tirou da cama. Passou febre, passou quase tudo. Acho que 2 dias depois, lá estava eu às 5 da matina iniciando a subida para estupa novamente.

Lembro também que foi uma viagem com grandes curas em relação ao budismo e outras coisas ligadas à religião. Estar perto de Lama Gangchen é sempre um prato cheio de oportunidades de “choques tântricos” (como diria outra mestra Dra Suzan Andrews) e suas curas.

Não peguei a fase de cura e ensinamentos por parte do Lama Gangchen. Desde que entrei, os ensinamentos são dados por Lama Michel e Lama Caroline e o Rinpoche faz o tantra. Eu sempre usei minha relação com os Lamas para me auxiliar muito mais nas minhas dificuldades internas do que nos meus problemas mundanos.

Lembro de uma vez ter conversado com o Lama Gangchen, que eu ainda tinha muita dificuldade com julgamento.  Apesar de já ter entendido racionalmente, até por experiência direta da interdependência em alguns casos, o quanto julgar não fazia sentido, ainda era muito forte em mim a crítica e o julgamento, e ele disse que iria me ajudar. Uns dois dias depois, estava dirigindo para um cliente para aprovar uma produção de fotos, com a “maritaca” ligada na cabeça, cheia de suposições e julgamentos. Lembro que já estava perto do local e, dirigindo, me vi sendo puxada para o alto. Conforme fui subindo, as coisas foram ficando tão pequenas e insignificantes que a “maritaca” parou e me pareceu tão sem sentido a importância que estava dando a tudo aquilo. Aos poucos, fui voltando entre feliz e o pensamento: “o que aconteceu aqui?”. A única coisa que tive certeza, na época, é que isso só podia ser coisa do Lama.

Outro evento, foi um dia que estava com muita raiva por algo do trabalho, mas muita mesmo. Daquelas que ficam rodando na cabeça como um disco furado de pensamentos horríveis. Saí do trabalho e voei para o Centro de Dharma, direto para a sala do Lama. Por sorte só estavam duas pessoas próximas, que ao virem o meu estado rapidamente saíram. Comecei a contar para o Lama que estava muito brava e muito triste porque, além de tudo, compreendia que estava sofrendo por minhas próprias projeções e venenos mentais. Chorava feito um bebê e fazia tempo que não tinha um descontrole daqueles. Ele se manteve quieto, sem dizer uma palavra, e fez aquelas coisas de Lama Gangchen de entrar em estados alterados de consciência e limpar as coisas em outros planos. Lembro que foi muita energia gasta, pois em alguns minutos estávamos os dois quase dormindo sentados, um apoiado no outro. e toda a raiva simplesmente havia desaparecido. Como esquecer um momento destes?

Algo impressionante no Lama Gangchen é a sua generosidade. Uma coisa que aprendi com ele é que generosidade também se aplica ao receber. Tem muita generosidade envolvida em fazer com que cada um se sinta amado e acolhido quando as pessoas vão “entregar” algo a ele, sejam presentes ou lamúrias. Poderia chamar de compaixão ou humildade, mas para mim é generosidade mesmo. É como se recebendo ele desse algo em troca. Não sei explicar.

Lama Caroline para mim é sinônimo de dedicação, estudo, coragem e autenticidade. Seu sorriso contagia e é sempre bom tê-la por perto, mesmo que nunca tenha conversado muito sobre o budismo diretamente com ela, admiro seu trabalho na editora e seu conhecimento do tantra, que aprendo nos ensinamentos.

Lama Michel é só amor, muito amor, muito amor mesmo. Ele estuda, ensina incansavelmente, faz iniciações, faz de tudo, até obras de construção, mas o que me pega mesmo nele são estas 4 letrinhas: Amor. E comigo também teve muita paciência.

Gostaria de deixar aqui alguns ensinamentos de Lama Michel que levarei para a vida:

Sonhe alto com baixa expectativa e esforço constante.
Se a gente não consegue controlar o que come, como irá controlar a mente.
Se quiser ser feliz, pare de se comparar.
Coloque o seu coração em tudo o que fizer.
A indiferença não é boa. Os problemas começam quando a gente pára de se importar.

Estar com a sangha e com os lamas é sempre algo maravilhoso. A gente se sente numa família reunida em torno do Dharma. Eu, normalmente, sou mais arredia, de olhar mais à distância, apesar de servindo sempre se necessário pela criação japonesa. Porém na sangha estou mais para RP e  gosto de cuidar de todos. Desde o começo fiz voluntariado de ocasião. Por exemplo, se via que o banheiro estava com o lixo cheio, tirava. Se precisavam de ajuda no lanche fazia arrumação dos pratos, se o chão estava sujo, limpava. O saco de lixo que passam no lanche do guru puja fui eu que comecei, pois via as cascas de banana no chão e me dava aflição.

Adorava trabalhar nos retiros, cuidar da comida. Coisas que faço menos hoje. Fiz algumas coisas na Fundação, como o evento “um dia de paz” no dia internacional da paz, a pedido do Lama Gangchen e que foi uma feliz realização. Hoje faço o voluntariado de Reiki no Hospital das Clínicas, também pela fundação.

Já estou em contagem para os próximos 10 anos. Tenho muitas passagens boas e ruins como é normal em todas as comunidades feitas com relações humanas, e creio que isso é que faz Florescer o amor verdadeiro e a confiança. Sempre serei extremamente grata a tudo que os lamas, o Dharma e a sangha tem me proporcionado. Tashi delek!

X